20 de Abril de 2019
|55| 3744.4061
Perigo para a Pele
02 de Janeiro de 2016
A exposição ao sol por períodos prolongados de trabalho parece inofensiva, mas pode ocasionar problemas sérios à saúde.
O Brasil é um país com dimensões continentais. Fica logo abaixo da linha do Equador em localização geográfica de intensa insolação, tem clima tropical e abriga grande miscigenação de raças. Um quebra-cabeça difícil para os dermatologistas, que têm de lidar com grandes variações de tons de pele e de temperatura em cada região, um cenário em que há também crianças de pele sensível, pessoas com histórico familiar de doenças de pele e trabalhadores expostos ao sol por grandes períodos.
Todo esse contexto faz com que os riscos à saúde da pele, o maior órgão do corpo humano, aumentem consideravelmente. São doenças como câncer, queimaduras, envelhecimento e as fotodermatoses que preocupam os especialistas. Portanto, conclui-se que a fotoproteção tem papel fundamental.
De acordo com a Sociedade Brasileira de Dermatologia, entidade que reúne mais de sete mil dermatologistas brasileiros, com tantas características peculiares tornou-se impossível aplicar no Brasil os mesmos conceitos de fotoproteção de outros países, com população e clima diferentes. Assim, a entidade elaborou o Consenso Brasileiro de Fotoproteção, primeiro documento oficial focado na população brasileira. O documento explica, primeiramente, que fotoproteção é um conjunto de medidas para reduzir a exposição ao sol e prevenir os efeitos agudos e crônicos dessa exposição. Nesse conjunto estão incluídas a educação em fotoproteção, a proteção através de coberturas e vidros, através do uso de roupas e acessórios, fotoprotetores tópicos e orais.
O Consenso define também que os fotoprotetores tópicos, protetores solares ou ainda filtros solares são produtos para uso na pele para interferir na radiação solar incidente, reduzindo seus efeitos deletérios. No Brasil, assim como em outros países, eles são considerados produtos cosméticos.
Em outras palavras, para os trabalhadores expostos ao sol, esses produtos não são considerados EPIs, portanto, não constam no Anexo I da Portaria Nº 194 de 7 de dezembro de 2010 (DOU de 08/12/2010 - Seção 1 - Pág. 85), como informa José Augusto da Silva Filho, consultor técnico em segurança do trabalho da JS Técnicas & Soluções. “É considerado obrigatório sua distribuição e o uso apenas em acordo/convenção coletiva de trabalho de algumas categorias como, por exemplo, na Pauta Nacional de Reivindicações FENTECT (Correios) e em alguns sindicatos como o dos trabalhadores do ramo da construção civil, minerações e de outras categorias”, explica o especialista.
Nesses acordos, segundo José Augusto, está incluído o fornecimento gratuito de protetor solar. Há também, em alguns casos, legislações municipais, como a do município de Vacaria (RS), onde uma lei dispõe sobre a obrigatoriedade do fornecimento gratuito de protetor solar para todos os servidores da prefeitura que, em horário laboral, mantiveram-se expostos à radiação solar e dá outras providências.
“Além desta determinação, vale salientar que a NR-6 não desobriga as empresas do cumprimento de outras disposições, sejam códigos específicos, regulamentos sanitários dos estados e municípios e acordos realizados nos ambientes de trabalho”, completa José.
Portanto, apesar de não serem considerados EPIs, tampouco estarem relacionados na NR-6 como EPI, os protetores solares devem ser fornecidos aos funcionários que realizam trabalhos ao ar livre. “Tudo de acordo com a NR-21, em que são exigidas medidas especiais que protejam os trabalhadores contra a insolação, calor, frio umidade e ventos inconvenientes. Mesmo não havendo uma lista com tais medidas, o protetor solar é um item indispensável nestes casos”, afirma o consultor técnico.
Um grande empecilho, na opinião de José Augusto, é o preço elevado do produto, considerando-se que cerca de 41,74% do valor corresponde a impostos. “O governo federal não incentiva essa prática saudável, que é o uso rotineiro do protetor solar”, reclama.
E o trabalhador usa o protetor solar? É comum, principalmente em obras da construção civil e de minerações, que esses produtos fiquem disponíveis para o uso, em frascos grandes. O consultor de segurança do trabalho confirma: ficam disponibilizados nas áreas de vestiários, almoxarifados, áreas administrativas e nos refeitórios para uso coletivo, principalmente para que se torne um hábito dentro da cultura de prevenção, bem como a reaplicação ao longo da jornada de trabalho. “Quanto às orientações dos profissionais da área de segurança do trabalho, essas serão transmitidas em treinamento admissional, DDS e em campanhas dentro da empresa sobre a prevenção de câncer de pele São medidas de controle que devem ser recomendadas no PPRA, PCMSO, LTCAT e em outros documentos de SST”, explica.
A maior dificuldade para que os trabalhadores expostos ao sol utilizem o creme de proteção ocorre, segundo o especialista, quando a empresa não tem uma política de segurança do trabalho, um sistema de gestão na área de segurança e saúde no trabalho, vontade política e técnica para se cumprir as recomendações de segurança e as medidas de controle previstas no PPRA, PCMSO, PCMAT, PGR e em outros documentos.
A Sociedade Brasileira de Dermatologia recomenda aos profissionais ou agentes de saúde algumas ações para trabalhadores externos, como desenvolver projetos de educação em fotoproteção nas empresas; projetos para avaliar métodos para mensurar o nível de exposição à radiação solar a que são submetidos; treinamento contínuo a médicos do trabalho de empresas com esse perfil de trabalhador; e promover junto às autoridades governamentais empenho para criar legislação específica sobre a transformação de protetor solar e medidas fotoprotetoras como EPI para trabalhadores em ambiente externo.
E os efeitos do sol podem ser devastadores. Dados epidemiológicos mostram elevada incidência do câncer da pele na população, sendo ele o mais freqüente (25%) de todos os tipos de câncer do corpo humano. O câncer de pele não melanoma está bem relacionado à exposição crônica e continuada à radiação UV. Quanto ao melanoma, tem sido demonstrada relação direta entre exposição à RUV e o risco de desenvolver esse tumor, parecendo haver associação com a exposição aguda e intensa.
A dermatologista e assessora da diretoria da SBD, Caroline Assed Saad, acrescenta que o tipo de câncer da pele mais comum, o carcinoma basocelular, tem como principal fator de risco a exposição solar crônica, acometendo paciente com faixa etária mais avançada e uma pele fotodanificada. “Os filtros solares de bons laboratórios que possuam estudos científicos devem ser de amplo espectro, com proteção contra os raios UVA e UVB. A recomendação para o uso, de maneira geral, é de um fator mínimo de proteção de 30”, alerta.
Ela explica que a diferença entre os fatores é o tempo necessário para reaplicação do filtro, ou seja, o tempo em que a pele, em exposição ao sol, ficaria vermelha. Por exemplo: a pele com um filtro de fator 30, que leva 10 minutos para provocar o eritema em contato com o sol, com um fator 60 levaria 20 minutos, tempos estes necessários para reaplicação do produto. “Cada pele tem um tempo para apresentar esse eritema, por isso, de um modo geral, recomendamos um fator mínimo de 30, e reaplicação a cada duas horas, ou a cada mergulho no mar ou piscina, e suor extremo”.
A dermatologista acrescenta que são importantes também os métodos de barreira para proteção, como chapéus, óculos e roupas protetoras. “Deve-se evitar exposição nos horários de pico do ultravioleta – entre 10h e 16h e consultar regularmente um dermatologista da Sociedade Brasileira de Dermatologia”, alerta.
Fonte: www.revistacipa.com.br
FOTOS
COMENTÁRIOS